Breve Histórico Biográfico para melhor Compreensão do texto
José Antônio Rios para fichas de cadastramento; José, para a família; Toni, para os ex-companheiros de bar e cantorias à janela de pretendentes despretensiosas; Zé Toni, para poucos inventivos e Rios, para seu grupo de trabalho. Esse multifacetado homem é a favor da globalização. Da globalização cultural, de idéias, conhecimentos, produtos e também de filhos. Isso mesmo: filhos.
Ao longo da vida acumulou histórias de amores e desamores, foi culpado por milhares de lágrimas e desencantos femininos – foi inclusive o desencadeador da mudança de interesses sexuais de uma moça que, depois de passar por suas mãos, ficou mais desesperada que uma chaleira avisando que a água já está fervida e foi se deixar cuidar por carinhos e toques femininos.
José é argentino – porteño – e, como noventa e sete por cento da classe intelectual argentina, é sociólogo. Ao longo de seus anos espalhou uma mão cheia de filhos pelo mundo. Três deles são argentinos – mas apenas um respira Buenos Aires, os outros dois trocaram o tango pelas castanholas –, um mexicano – tequiiiiila - e uma brasileira, coincidentemente eu.
Caso fosse carioca, Zé, seria o típico malandro boêmio boa praça da Lapa cantado por Chico Buarque.
Eis o malandro na praça outra vez Caminhando na ponta dos pés Como quem pisa nos corações Que rolaram nos cabarés Entre deusas e bofetões Entre dados e coronéis Entre parangolés e patrões O malandro anda assim de viés Deixa balançar a maré E a poeira assentar no chão Deixa a praça virar um salão Que o malandro é o barão da ralé
Depois de tantos casos e casamentos regados a whisky – caros e baratos, dependia da mulher -, Champagne, gozos e lágrimas Toni anuncia sua união legal com seu terceiro amor-para-a-vida-inteira. Nós, os filhos, desconfiamos mas acabamos convencidos das boas intenções de papá.Ginecologista ela, sociólogo ele; linha dura ela, ele boêmio; um casamento ela, ele dois; casos pontuais ela, ele um conquistador inveterado; ela do tipo “resolvo meus problemas hoje”, ele “deixo tudo para amanhã”; ela telefone e sushi, ele aulas de yoga e conversas de botequim. Enfim, o casal perfeito pra uma vida inteira de satifeitas reclamações.
Quinze de Novembro de 2007 - quinta
O dia começou atrasado. Ou melhor: o meu dia começou atrasado – é, isso aí. O meu dia 15 de novembro de dois mil e sete começou atrasado. Quando acordei, mais ou menos às nove horas da manhã, eu já devia estar de banho e café tomados para ir ao casamento civil do ex-fututo-Toni. Optei pelo banho e não pelo café. Naquela situação era mais importante estar limpa do que alimentada. Saí correndo. Sete quadras. Metrô. Linha D. Mapa. Ônibus. Pedir informações. Desistir. Táxi. 12 pesos argentinos. Cartório. Elevador lotado. Casal. Maquiagens demais. Brilhos demais. Irmãos demais. Família demais. Espanhol demais. Sim, era ali mesmo.
Cheguei minutos antes de perder um espetáculo digno de ser representado por discípulos do Teatro do Absurdo. Quase dois bilhões de famílias reunidas esperando ouvir o nome de seus casais por um microfone com mau contato. Quando o microfone antecipava os nomes pelo zumbido Zzzzzzmmmmmmmmmmmsssshhhhhh o salão principal ficava em extremo silêncio esperando que a voz que reverberava pelo lugar nomeasse seus respectivos casais. “Marcio Ignácio y Marita vayan, juntamente com sus invitados, a la sala siete”. A família e os amigos Marcio Ignácio e Marita entregavam suas gargantas e suas palmas com a mesma intensidade eufórica de uma final de Copa do Mundo em que a Argentina, ficticiamente, ganhasse do Brasil.
Quando José Antônio Rios e Carla Souza foram convidados a se dirigir a sala nove o salão ficou em festa. Era uma convulsão de gritos embrulhados em cetim e crepe. E, claro, não podia deixar de faltar uma alma gozadora que levasse confetes purpurinados para colorir a alma e as entranhas dos familiares.
O evento que servia para unir o casal Rios e Souza frente ao Estado foi dirigido por uma juíza cheia da graça – e não cheia de graça. O cômico foi que, depois de tantos casos e casamentos de Toni versus um único casamento de Carla, quem tinha problemas legais quanto ao divórcio era a noiva. Para resolver sua pendência legal foram necessários alguns vários telefonemas e outras visitas à juíza. Carla ainda teve de ouvir seu quase futuro marido ser indagado pela juíza se ele sabia “onde estava se metendo” ao dizer “sim” à clássica pergunta. Ele, aparentemente, sabia.
Trezentas e vinte quatro mil fotos depois a cerimônia estava encerrada e cinqüenta e nove horas depois começava, enfim, a cerimônia-festiva-pseudo-religiosa-pseudo-acreditamos-em-um-poder-maior para comemorar a união dos pombinhos.
Dezessete de Novembro de Dois Mil e Sete - sábado
20 horas e 35 minutos. Quase pontualidade da minha parte. Toalhas brancas. Vestidos bonitos. Moças bem arrumadas. Rapazes vestidos por suas mulheres. Salão organizado. Bandejas mantidas no ar por garçons de luvas pretas. Bebidas deliciosas e fotógrafos contratados. Área externa decorada. Flores bem cuidadas. Maquiagens. Maquiagens. Maquiagens. Cortes de cabelo. Unhas feitas. Bolsas pequenas. Saltos altos. Pernas depiladas e sobrancelhas pinçadas. Homens de bigodes e barbas metricamente aparados. Enfim, todos os elementos de uma festa de casamento.
Muitas doses de bebida depois a integração era total. Inimizades e infamiliaredades foram deixadas de lado e as risadas e corpos balançantes faziam com que gotas de bebida fossem parar no chão. A noiva brilhava dentro de um vestido verde-praia-muito-limpa de cetim e tinha um bronzeado equivalente. O já ex-Toni dos ex-companheiros de bar e cantorias à janela de pretendentes despretensiosas e o então somente José familiar também estava feliz e cumprimentava a todos efusivamente. Eu, sem muito mais o que fazer, bebia. Aliás, eu e Marisol, a namorada do Marcelo, meu meio-irmão mexicano.
Depois de algum tempo fomos chamados à parte aberta e os saltos das moças oscilavam entre o duro das pedras e o fofo da terra. Dez minutos depois todas tinham-se deixado afundar.
A cerimônia foi conduzida por um casal de amigos dos noivos que se vestia de branco da cabeça aos pés. Os cortes das roupas não eram bem definidos e, possivelmente, poderiam ser feitos cinco trajes só com o excesso de tecido que esbanjavam.
Eles falaram algo sobre luz, amor, energia e sintonia com o universo. Foram relativamente rápidos – ponto pra eles – mas tiveram a estúpida idéia – com intenções simpáticas, claro –de oferecer o microfone aos convidados que quisessem dizer algumas palavras ao casal homenageado.
O primeiro a pegar o objeto reluzente foi um amigo da época em que José era Tonie ficou relembrando as farras homéricas que ele e meu pai faziam. A testa da noiva franziu e o amigo entendeu que era hora de largar o microfone.
Depois veio Marisol com a mistura de tipos etílicos se fazendo notar e cantou uma música. Ela cantar mal e ninguém conhecer a canção foi parte da razão pela qual as pessoas começaram a aplaudir rapidamente e fizeram com que ela, felizmente, parasse de cantar.
Sobrinha dela, filho dele, filha dela com bebê no colo, amigos do hospital, tios a beira da morte, amigos de muitos anos, vizinhos, parentes inomináveis e primas de terceiro grau passaram pelo microfone até que o casal que conduzia a festa teve a mais triste das idéias: fazer uma “dança integradora”.
A cena quase circense consistia em formar dois círculos – um maior e um menor – e obrigava as pessoas a darem-se as mãos. A música começava e o círculo de dentro ia em direção oposta a do de fora e quando alguém gritasse “heeeeeeey” a pessoa era obrigada a abraçar fraternalmente o ser que estivesse a sua frente. Desastroso, simplesmente.
Em seguida as pessoas começaram a se retirar constrangidas e com os saltos ainda enterrados foram em busca de doses de vinho, whisky e champagne.
A festa terminou com alguns jovens bêbados, senhoras com seus sapatos nas mãos, senhores com dois botões da camisa abertos, punhos dobrados e crianças chorando. O casal de noivos feliz com o sucesso da festa e todos os parentes comentando da beleza do bufe, Cunhada vomitando no andar de cima e pessoas desinteressantes da família em busca de táxis iguais que as levassem a suas casas iguais.
A família é, realmente o petróleo dos psicólogos.