segunda-feira, 26 de maio de 2008

pêndulos

Um pêndulo que pendula não faz mais que sua obrigação. Sé é que pêndulos têm obrigações. Ninguém critica um pêndulo pendulantemente produtivo, porque pêndulo que não pendula vira peso. E peso todo mundo tem demais. Ninguém quer mandar coisa que não pesa, começar a pesar.
E eu?
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Eu não pendulo: eu pe(n)so

terça-feira, 20 de maio de 2008

ZUPT!


Ele foi diminuindo, diminuindo, diminuindo até desaparecer por completo. Ninguém mais ouviu falar dele. Continuava a freqüentar os mesmos lugares, mas agora era diferente - ninguém o via. Não sabia exatamente o que o tinha levado ao caminho dos sem voz, nem vez, mas era definitivamente lá o seu lugar.
No início quis questionar, entender o que tinha acontecido com todos os seus princípios, idéias e ideais, que faziam dele um homem de convicções - ele acreditava ter sido esse homem, ou, no mínimo, um homem. Nunca recebeu uma resposta vinda de lado algum, mas não estranhou.
Durante toda sua vida ele imaginou que isso, em algum momento, fosse acontecer. No entanto sempre houve dentro dele uma fé em si mesmo que insistia em dizer que com ele não, com ele seria diferente.
Agora lhe parecia ridículo haver pensado daquela maneira. Não fazia sentido, nem existia qualquer razão que o convencesse por meios racionais de que o destino o havia escolhido para compor uma história diferente da dos demais. E, na verdade, acabou achando muito confortável aquela posição típico-funcionário-público-que-não-se-importa-com-nada-além-de-seu-umbigo.Tudo já havia sido pensado para ele e as coisas aconteciam sem surpresas.
Ia sempre ao mesmo bar, escolhia sempre a mesma mesa, com a mesma toalha xadrez e o mesmo abajur tosco com o tecido verde escuro já desbotado pela luz quente da lâmpada. Chamava o mesmo garçom há dois anos, e há esse mesmo tempo pedia a mesma dose de conhaque barato. Acabava a noite sempre bêbado e jogado em alguma sarjeta suja que não mereça ser vista por ninguém além do olhar tenso de um passageiro no ônibus a caminho do hospital.
Aquele garçom, a quem deixava sempre alguns trocados sobre a mesa, era seu único vínculo com o mundo real – ou real segundo sua percepção deturpada. Parou de questionar a vida e as decisões que haviam sido tomadas por outras pessoas para ele. Tudo parecia ser assim e ponto.
Afinal, ele sempre fora mais um no meio da multidão, e agora havia, definitivamente, se transformado em parte da massa acéfala e conformada que consome tudo aquilo que dizem que deve ser consumido – de mulheres baratas e frias à comidas congeladas levemente aquecidas.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

conversascotidianas.

A- Ihhh... Acho que essa Coca-Cola já deu o que tinha que dar.

B- Páááára! Eu já te disse umas mil e duzentas vezes que gosto de refri sem gás.

A- Mas tá choca, choca... Vou colocar fora.

B- Não faz isso! Acho que a gente vai ter eternamente essa discussão. "A coca tá ruim / Mas eu gosto / Vou colocar fora...". Sempre igual!

glub glub glub glub glub glub glub glub glub glub glub glub
Coca descendo pelo cano
A- Ah! Só pra manter a tradição!

terça-feira, 6 de maio de 2008

jogo de varetas








DESDOSAGEM

Ele faz um sinal e o ônibus pára. Sobre três degraus. Paga 2, 10 ao cobrador. O preço das passagens segue aumentando. Passa para a parte de trás do ônibus e senta próximo a uma janela. Uma parada depois senta uma senhora de seus oitenta anos ao seu lado e puxa conversa. Ela diz que vai ao hospital fazer um exame de urina para alguma coisa que ele parou de escutar. Ele também vai ao hospital.

Ele olha pela janela e vê pessoas que parecem não ter pecados. Ele tem. Muitos. Ama profundamente cada um deles. Vê crianças sendo conduzidas pelas mãos de suas mães - pela hora devem estar voltando para casa depois de uma longa tarde escolar. O mendigo deitado ao lado de uma padaria parece ser, para ele, a mais pura das criaturas. A senhora do exame de urina também parece não ter pecados, bem como a menina que pousa sua pasta de faculdade sobre as pernas da senhora.

A lembrança das diversas noitadas que o levaram a fazer o exame que ele agora vai buscar voltam a sua cabeça. "Que noites", pensa o nosso personagem.
Se levanta um ponto de ônibus antes do que ele deve descer . Pede licença às pessoas que estão no seu caminho. Pára atrás de um rapaz que deve ter seus vinte e cinco anos. Ele já tem trinta e dois. O rapaz de 1,80m lhe instiga. Ele veste uma camiseta preta e tem cabelos da mesma cor. Na nuca, o rapaz tem a cabeça de um dragão. O resto desse está escondido pela camiseta. Ele queria saber até onde vai o animal, mas no mesmo segundo píííííííííííííííííííííí.

Hora de descer.

Ele desce e o homem do dragão atravessa a rua na sua frente. Ele segue reto em direção ao hospital. Atravessa as portas de vidro que prevêem sua passagem e se abrem. Aperta um botão que indica uma flecha para cima. "Segundo andar", diz à ascensorista. Sala 207. Abre a maçaneta dourada e entra. "João Carlos da Silva", responde à estagiária loira e magra com cara de limpa que lhe pergunta o nome para buscar o exame de João. Ela volta e lhe entrega o papel.

Ele sai com a resposta na mão, mas não a abre.

Atravessa a rua e entra no primeiro bar que vê. Pede um whisky - "sem gelo, por favor". Toma-o em um só sorvo. A garganta arde e ele olha o envelope branco e casto que poderá mudar sua vida em definitivo. "Mais um whiskinho, amigo!".
Chegou o momento há tanto tempo adiado. Ele rasga a lateral esquerda do envelope e abre a folha que está dobrada em três parte. "JOÃO CARLOS SILVA. HIV NEGATIVO".

Ele, que nunca acreditou na felicidade quase consegue tocá-la nesse momento. Toma a segunda dose e só agora consegue ouvir a voz de Cazuza dizendo "Que quem ama nesta vida Às vezes ama sem querer Que a dor no fundo esconde Uma pontinha de prazer"... Seus olhos se enchem de lágrimas e ao olhar para o lado vê o homem do dragão tatuado assistindo toda a cena.

"Posso tomar um whisky contigo?" Claro que podia. Tudo na vida de João começa com uma dose.

Na manhã seguinte ele acorda e vê o dragão inteiro lhe olhando. Mais uma dose. Mais um exame.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Gonzo

Breve Histórico Biográfico para melhor Compreensão do texto


José Antônio Rios para fichas de cadastramento; José, para a família; Toni, para os ex-companheiros de bar e cantorias à janela de pretendentes despretensiosas; Zé Toni, para poucos inventivos e Rios, para seu grupo de trabalho. Esse multifacetado homem é a favor da globalização. Da globalização cultural, de idéias, conhecimentos, produtos e também de filhos. Isso mesmo: filhos.

Ao longo da vida acumulou histórias de amores e desamores, foi culpado por milhares de lágrimas e desencantos femininos – foi inclusive o desencadeador da mudança de interesses sexuais de uma moça que, depois de passar por suas mãos, ficou mais desesperada que uma chaleira avisando que a água já está fervida e foi se deixar cuidar por carinhos e toques femininos.

José é argentino – porteño – e, como noventa e sete por cento da classe intelectual argentina, é sociólogo. Ao longo de seus anos espalhou uma mão cheia de filhos pelo mundo. Três deles são argentinos – mas apenas um respira Buenos Aires, os outros dois trocaram o tango pelas castanholas –, um mexicano – tequiiiiila - e uma brasileira, coincidentemente eu.

Caso fosse carioca, Zé, seria o típico malandro boêmio boa praça da Lapa cantado por Chico Buarque.

Eis o malandro na praça outra vez Caminhando na ponta dos pés Como quem pisa nos corações Que rolaram nos cabarés Entre deusas e bofetões Entre dados e coronéis Entre parangolés e patrões O malandro anda assim de viés Deixa balançar a maré E a poeira assentar no chão Deixa a praça virar um salão Que o malandro é o barão da ralé

Depois de tantos casos e casamentos regados a whisky – caros e baratos, dependia da mulher -, Champagne, gozos e lágrimas Toni anuncia sua união legal com seu terceiro amor-para-a-vida-inteira. Nós, os filhos, desconfiamos mas acabamos convencidos das boas intenções de papá.Ginecologista ela, sociólogo ele; linha dura ela, ele boêmio; um casamento ela, ele dois; casos pontuais ela, ele um conquistador inveterado; ela do tipo “resolvo meus problemas hoje”, ele “deixo tudo para amanhã”; ela telefone e sushi, ele aulas de yoga e conversas de botequim. Enfim, o casal perfeito pra uma vida inteira de satifeitas reclamações.


Quinze de Novembro de 2007 - quinta


O dia começou atrasado. Ou melhor: o meu dia começou atrasado – é, isso aí. O meu dia 15 de novembro de dois mil e sete começou atrasado. Quando acordei, mais ou menos às nove horas da manhã, eu já devia estar de banho e café tomados para ir ao casamento civil do ex-fututo-Toni. Optei pelo banho e não pelo café. Naquela situação era mais importante estar limpa do que alimentada. Saí correndo. Sete quadras. Metrô. Linha D. Mapa. Ônibus. Pedir informações. Desistir. Táxi. 12 pesos argentinos. Cartório. Elevador lotado. Casal. Maquiagens demais. Brilhos demais. Irmãos demais. Família demais. Espanhol demais. Sim, era ali mesmo.

Cheguei minutos antes de perder um espetáculo digno de ser representado por discípulos do Teatro do Absurdo. Quase dois bilhões de famílias reunidas esperando ouvir o nome de seus casais por um microfone com mau contato. Quando o microfone antecipava os nomes pelo zumbido Zzzzzzmmmmmmmmmmmsssshhhhhh o salão principal ficava em extremo silêncio esperando que a voz que reverberava pelo lugar nomeasse seus respectivos casais. “Marcio Ignácio y Marita vayan, juntamente com sus invitados, a la sala siete”. A família e os amigos Marcio Ignácio e Marita entregavam suas gargantas e suas palmas com a mesma intensidade eufórica de uma final de Copa do Mundo em que a Argentina, ficticiamente, ganhasse do Brasil.

Quando José Antônio Rios e Carla Souza foram convidados a se dirigir a sala nove o salão ficou em festa. Era uma convulsão de gritos embrulhados em cetim e crepe. E, claro, não podia deixar de faltar uma alma gozadora que levasse confetes purpurinados para colorir a alma e as entranhas dos familiares.

O evento que servia para unir o casal Rios e Souza frente ao Estado foi dirigido por uma juíza cheia da graça – e não cheia de graça. O cômico foi que, depois de tantos casos e casamentos de Toni versus um único casamento de Carla, quem tinha problemas legais quanto ao divórcio era a noiva. Para resolver sua pendência legal foram necessários alguns vários telefonemas e outras visitas à juíza. Carla ainda teve de ouvir seu quase futuro marido ser indagado pela juíza se ele sabia “onde estava se metendo” ao dizer “sim” à clássica pergunta. Ele, aparentemente, sabia.

Trezentas e vinte quatro mil fotos depois a cerimônia estava encerrada e cinqüenta e nove horas depois começava, enfim, a cerimônia-festiva-pseudo-religiosa-pseudo-acreditamos-em-um-poder-maior para comemorar a união dos pombinhos.


Dezessete de Novembro de Dois Mil e Sete - sábado

20 horas e 35 minutos. Quase pontualidade da minha parte. Toalhas brancas. Vestidos bonitos. Moças bem arrumadas. Rapazes vestidos por suas mulheres. Salão organizado. Bandejas mantidas no ar por garçons de luvas pretas. Bebidas deliciosas e fotógrafos contratados. Área externa decorada. Flores bem cuidadas. Maquiagens. Maquiagens. Maquiagens. Cortes de cabelo. Unhas feitas. Bolsas pequenas. Saltos altos. Pernas depiladas e sobrancelhas pinçadas. Homens de bigodes e barbas metricamente aparados. Enfim, todos os elementos de uma festa de casamento.

Muitas doses de bebida depois a integração era total. Inimizades e infamiliaredades foram deixadas de lado e as risadas e corpos balançantes faziam com que gotas de bebida fossem parar no chão. A noiva brilhava dentro de um vestido verde-praia-muito-limpa de cetim e tinha um bronzeado equivalente. O já ex-Toni dos ex-companheiros de bar e cantorias à janela de pretendentes despretensiosas e o então somente José familiar também estava feliz e cumprimentava a todos efusivamente. Eu, sem muito mais o que fazer, bebia. Aliás, eu e Marisol, a namorada do Marcelo, meu meio-irmão mexicano.

Depois de algum tempo fomos chamados à parte aberta e os saltos das moças oscilavam entre o duro das pedras e o fofo da terra. Dez minutos depois todas tinham-se deixado afundar.
A cerimônia foi conduzida por um casal de amigos dos noivos que se vestia de branco da cabeça aos pés. Os cortes das roupas não eram bem definidos e, possivelmente, poderiam ser feitos cinco trajes só com o excesso de tecido que esbanjavam.

Eles falaram algo sobre luz, amor, energia e sintonia com o universo. Foram relativamente rápidos – ponto pra eles – mas tiveram a estúpida idéia – com intenções simpáticas, claro –de oferecer o microfone aos convidados que quisessem dizer algumas palavras ao casal homenageado.

O primeiro a pegar o objeto reluzente foi um amigo da época em que José era Tonie ficou relembrando as farras homéricas que ele e meu pai faziam. A testa da noiva franziu e o amigo entendeu que era hora de largar o microfone.

Depois veio Marisol com a mistura de tipos etílicos se fazendo notar e cantou uma música. Ela cantar mal e ninguém conhecer a canção foi parte da razão pela qual as pessoas começaram a aplaudir rapidamente e fizeram com que ela, felizmente, parasse de cantar.

Sobrinha dela, filho dele, filha dela com bebê no colo, amigos do hospital, tios a beira da morte, amigos de muitos anos, vizinhos, parentes inomináveis e primas de terceiro grau passaram pelo microfone até que o casal que conduzia a festa teve a mais triste das idéias: fazer uma “dança integradora”.

A cena quase circense consistia em formar dois círculos – um maior e um menor – e obrigava as pessoas a darem-se as mãos. A música começava e o círculo de dentro ia em direção oposta a do de fora e quando alguém gritasse “heeeeeeey” a pessoa era obrigada a abraçar fraternalmente o ser que estivesse a sua frente. Desastroso, simplesmente.

Em seguida as pessoas começaram a se retirar constrangidas e com os saltos ainda enterrados foram em busca de doses de vinho, whisky e champagne.

A festa terminou com alguns jovens bêbados, senhoras com seus sapatos nas mãos, senhores com dois botões da camisa abertos, punhos dobrados e crianças chorando. O casal de noivos feliz com o sucesso da festa e todos os parentes comentando da beleza do bufe, Cunhada vomitando no andar de cima e pessoas desinteressantes da família em busca de táxis iguais que as levassem a suas casas iguais.

A família é, realmente o petróleo dos psicólogos.

Primeiro passo.

A primeira publicação é sempre meio tímida. As pessoas têm uma tendência a querer definir as razões da existência de um blog, mas acho que coisas sem sentido são muito mais interessantes. Não quero antecipar o tipo de texto que publicarei por aqui. Acho que não faz sentido tentar se definir dessa forma. Sei que escreverei desde que sinta vontade e tenha algo a dizer, mas não quero me comprometer com um estilo, nem com um leitor.
Muito bem, será dessa forma - ou dessa não-forma, ainda tou em dúvida. E a dúvida é a parte mais importante desse blog - pelo menos é o que eu acho até esse ponto. Não quero mais ter certezas - já tenho muitas delas. As certezas têm cheiro de naftalina e não levam a lugar nenhum, ou melhor: levam sempre aos mesmos lugares. Gosto de gente que pensa, se interessa, critica, questiona e não aceita qualquer coisa enlatada. Amo gente indignada.
Pois é isso... e acho que chega, pelo menos por enquanto... Nos vemos nos detalhes.
Carolina Marquis