terça-feira, 20 de maio de 2008

ZUPT!


Ele foi diminuindo, diminuindo, diminuindo até desaparecer por completo. Ninguém mais ouviu falar dele. Continuava a freqüentar os mesmos lugares, mas agora era diferente - ninguém o via. Não sabia exatamente o que o tinha levado ao caminho dos sem voz, nem vez, mas era definitivamente lá o seu lugar.
No início quis questionar, entender o que tinha acontecido com todos os seus princípios, idéias e ideais, que faziam dele um homem de convicções - ele acreditava ter sido esse homem, ou, no mínimo, um homem. Nunca recebeu uma resposta vinda de lado algum, mas não estranhou.
Durante toda sua vida ele imaginou que isso, em algum momento, fosse acontecer. No entanto sempre houve dentro dele uma fé em si mesmo que insistia em dizer que com ele não, com ele seria diferente.
Agora lhe parecia ridículo haver pensado daquela maneira. Não fazia sentido, nem existia qualquer razão que o convencesse por meios racionais de que o destino o havia escolhido para compor uma história diferente da dos demais. E, na verdade, acabou achando muito confortável aquela posição típico-funcionário-público-que-não-se-importa-com-nada-além-de-seu-umbigo.Tudo já havia sido pensado para ele e as coisas aconteciam sem surpresas.
Ia sempre ao mesmo bar, escolhia sempre a mesma mesa, com a mesma toalha xadrez e o mesmo abajur tosco com o tecido verde escuro já desbotado pela luz quente da lâmpada. Chamava o mesmo garçom há dois anos, e há esse mesmo tempo pedia a mesma dose de conhaque barato. Acabava a noite sempre bêbado e jogado em alguma sarjeta suja que não mereça ser vista por ninguém além do olhar tenso de um passageiro no ônibus a caminho do hospital.
Aquele garçom, a quem deixava sempre alguns trocados sobre a mesa, era seu único vínculo com o mundo real – ou real segundo sua percepção deturpada. Parou de questionar a vida e as decisões que haviam sido tomadas por outras pessoas para ele. Tudo parecia ser assim e ponto.
Afinal, ele sempre fora mais um no meio da multidão, e agora havia, definitivamente, se transformado em parte da massa acéfala e conformada que consome tudo aquilo que dizem que deve ser consumido – de mulheres baratas e frias à comidas congeladas levemente aquecidas.

5 blá blá blá:

Luis Felipe disse...

semelhansas de bukowski com uma pitada de a vida é monotona reclamando do malditos funcionarios publicos! muito boa!

livia disse...

nossa que triste

adorei a parte das mulherres frias e da comida congelada

ótimo carol!

Juliana disse...

Vamos associar isso ao que estávamos falando no msn antes. Tá, eu entendo, no caso é o ''certo/errado'' que tentam nos empurrar às vezes é tão ''bem empurrado'' que a gente começa a achar que estamos ficando loucos de pensar diferente dos ''mestres''. O fato é: será que somos os únicos que pensam, além dos tais 'mestres' que dominam a maioria?

bruno disse...

me lembrou jerry stall, só que com mais trejeitos femininos!
curti a ligação com o outro texto...

Ricardo disse...

Mulheres frias e levemente aquecida e comidas baratas

Bravo Caroul