terça-feira, 6 de maio de 2008

DESDOSAGEM

Ele faz um sinal e o ônibus pára. Sobre três degraus. Paga 2, 10 ao cobrador. O preço das passagens segue aumentando. Passa para a parte de trás do ônibus e senta próximo a uma janela. Uma parada depois senta uma senhora de seus oitenta anos ao seu lado e puxa conversa. Ela diz que vai ao hospital fazer um exame de urina para alguma coisa que ele parou de escutar. Ele também vai ao hospital.

Ele olha pela janela e vê pessoas que parecem não ter pecados. Ele tem. Muitos. Ama profundamente cada um deles. Vê crianças sendo conduzidas pelas mãos de suas mães - pela hora devem estar voltando para casa depois de uma longa tarde escolar. O mendigo deitado ao lado de uma padaria parece ser, para ele, a mais pura das criaturas. A senhora do exame de urina também parece não ter pecados, bem como a menina que pousa sua pasta de faculdade sobre as pernas da senhora.

A lembrança das diversas noitadas que o levaram a fazer o exame que ele agora vai buscar voltam a sua cabeça. "Que noites", pensa o nosso personagem.
Se levanta um ponto de ônibus antes do que ele deve descer . Pede licença às pessoas que estão no seu caminho. Pára atrás de um rapaz que deve ter seus vinte e cinco anos. Ele já tem trinta e dois. O rapaz de 1,80m lhe instiga. Ele veste uma camiseta preta e tem cabelos da mesma cor. Na nuca, o rapaz tem a cabeça de um dragão. O resto desse está escondido pela camiseta. Ele queria saber até onde vai o animal, mas no mesmo segundo píííííííííííííííííííííí.

Hora de descer.

Ele desce e o homem do dragão atravessa a rua na sua frente. Ele segue reto em direção ao hospital. Atravessa as portas de vidro que prevêem sua passagem e se abrem. Aperta um botão que indica uma flecha para cima. "Segundo andar", diz à ascensorista. Sala 207. Abre a maçaneta dourada e entra. "João Carlos da Silva", responde à estagiária loira e magra com cara de limpa que lhe pergunta o nome para buscar o exame de João. Ela volta e lhe entrega o papel.

Ele sai com a resposta na mão, mas não a abre.

Atravessa a rua e entra no primeiro bar que vê. Pede um whisky - "sem gelo, por favor". Toma-o em um só sorvo. A garganta arde e ele olha o envelope branco e casto que poderá mudar sua vida em definitivo. "Mais um whiskinho, amigo!".
Chegou o momento há tanto tempo adiado. Ele rasga a lateral esquerda do envelope e abre a folha que está dobrada em três parte. "JOÃO CARLOS SILVA. HIV NEGATIVO".

Ele, que nunca acreditou na felicidade quase consegue tocá-la nesse momento. Toma a segunda dose e só agora consegue ouvir a voz de Cazuza dizendo "Que quem ama nesta vida Às vezes ama sem querer Que a dor no fundo esconde Uma pontinha de prazer"... Seus olhos se enchem de lágrimas e ao olhar para o lado vê o homem do dragão tatuado assistindo toda a cena.

"Posso tomar um whisky contigo?" Claro que podia. Tudo na vida de João começa com uma dose.

Na manhã seguinte ele acorda e vê o dragão inteiro lhe olhando. Mais uma dose. Mais um exame.

6 blá blá blá:

Juliana disse...

Teus textos são ótimos, né. Fiquei pensando que caso você aprofundasse um pouquinho mais a personalidade do personagem e menos nas imagens teríamos um ótimo personagem de teatro para moldar :)
beijos, querida =*

marianabartz disse...

"Mais uma dose? É claro que eu tou a fim" já diria nosso querido Cazuza..

Boa sorte com o blog!
Ótimo texto gonzo!

Beijos

Ricardo Gruner disse...

aah, esse eu (e a ivone!) já conhecemos!

Ricardo disse...

Ja disseram isso
Mas sempre viva duas doses abaixo

Otimo

Alice linda disse...

carolllllllll....achei teu blog por acaso e amei!
vi um curta na minnhca cabeça!
transforma em roteiro e vamo filma!
=D
saudade amore!!

' arcano disse...

cara, vc escreve muito bem *-*